Por que Santa Catarina é o segundo estado mais inovador do Brasil? Entenda
Santa Catarina é hoje o segundo estado mais inovador do Brasil, atrás apenas de São Paulo, segundo o Índice Brasil de Inovação e Desenvolvimento (IBID), calculado pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi). O estado, que ocupava a terceira posição em 2015, tem crescido no ranking de forma consistente, já que assumiu o segundo lugar em 2020 e tem ocupado lugar de destaque nas discussões sobre inovação e tecnologia de todo o país. Para o presidente da Associação Catarinense de Tecnologia (Acate), Diego Ramos, esse desempenho é consequência de uma decisão tomada quatro décadas atrás, quando Florianópolis dependia quase exclusivamente do setor público e da atividade turística, concentrada em poucos meses do ano. Como forma de diversificação, a capital catarinense abraçou a inovação como parte do próprio DNA, e hoje é reconhecida oficialmente como Capital Nacional das Startups. "Santa Catarina construiu esse desempenho ao longo de quatro décadas com base em uma decisão estratégica. Precisávamos desenvolver uma nova matriz econômica, e a tecnologia foi a escolha natural: como 70% do território da ilha é área de preservação permanente, não poderíamos ter indústrias tradicionais aqui. A tecnologia casou perfeitamente com essa realidade, porque é uma economia limpa", afirma. Segundo Ramos, a decisão não resultou de um movimento isolado, mas da junção entre a limitação geográfica, uma visão de longo prazo e a articulação constante entre governo, universidades e empresas. Essa base histórica aparece hoje em números: Florianópolis concentra 25% do Produto Interno Bruto vindo da tecnologia, a maior fatia entre todas as capitais brasileiras, à frente de Curitiba, com 14,4%, e São Paulo, com 12,5%. "O diferencial catarinense está na maturidade e densidade do ecossistema. Não é só volume, temos o ecossistema mais diverso do Brasil, com taxa de sobrevivência de startups acima da média nacional. Empresas que cresceram aqui hoje reinvestem no ecossistema, formando novas gerações. Essa capacidade de renovação constante é o que nos mantém relevantes década após década ",diz. O ritmo de crescimento do ecossistema catarinense também aparece nos números mais recentes do setor. Um levantamento do Sebrae Startups, de 2025, mostra que o número total de empresas desta categoria no Brasil saltou de 18.056 para 22.869 em um ano, alta de 26,7%. Santa Catarina responde por 2.239 dessas empresas, o equivalente a 9,8% do total nacional, enquanto Florianópolis ocupa a segunda posição entre as cidades brasileiras com mais negócios do tipo. Quatro fases de amadurecimento Ramos costuma dividir a trajetória catarinense em quatro fases, cada uma marcada por um tipo diferente de avanço do ecossistema. O primeiro passo foi investir na capacitação de profissionais e no desenvolvimento dos negócios. Depois, vieram as primeiras grandes empresas, que viraram case de sucesso e abriram as portas para as demais iniciativas. "Nos anos 1980 e 1990, o foco era formar empresas e profissionalizar a gestão, e a Midtec, nossa incubadora fundada há 26 anos, foi fundamental nessa fase. Nos anos 2000, vieram os primeiros casos de escala, com empresas que começaram a mostrar resultados expressivos e a atrair atenção nacional. A partir de 2010, o ecossistema ganhou sofisticação com a entrada de venture capital, programas de inovação aberta como o LinkLab e internacionalização estruturada", conta. Hoje, segundo o presidente, Santa Catarina vive a fase de consolidação global. Agora, o estado não compete apenas no Brasil, mas busca espaço junto aos ecossistemas internacionais. O motivo, segundo ele, é a diversidade de soluções que são desenvolvidas em terras catarinenses. "Essa trajetória foi possível porque nunca dependemos de uma única empresa ou setor. O ecossistema catarinense é diversificado, e isso aparece na própria estrutura da Acate, com 13 verticais de negócio, entre elas, fintechs, agtechs, healthtechs, construtechs, manufatura 4.0, entre outras", explica Ramos. O amadurecimento do setor tecnológico catarinense também aparece nos indicadores do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) no estado. Desde 2014, os Institutos Senai de Inovação e Tecnologia de Santa Catarina somam R$ 1,02 bilhão em carteira de projetos desenvolvidos com a indústria, distribuídos em 344 iniciativas para 417 empresas em áreas como transformação digital e inteligência artificial, robótica avançada, manufatura avançada e economia de baixo carbono. O papel das universidades e das entidades Para o presidente da Acate, nenhuma dessas fases teria avançado sem a base formada pelas universidades catarinenses, com destaque para a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). “As universidades foram a base de tudo, especialmente a UFSC. O setor precisa de mão de obra qualificada. A UFSC, junto com Udesc, Univali e outras instituições, formaram gerações de profissionais qualificados e criaram centros de pesquisa que alimentam o ecossistema. Um exemplo importante é a Fundação Certi, ligada à UFSC, que foi um dos embriões do ecossistema. Muitas empresas de tecnologia nasceram de projetos acadêmicos ou contaram com professores e pesquisadores como fundadores ou mentores”, explica. Ainda de acordo com o presidente, outro papel determinante foi o da Acate, que assumiu como articuladora do mercado de tecnologia em 1986. Desde então, a instituição conecta empresas, influencia políticas públicas e abre portas para a internacionalização. Presença que ultrapassa os limites da capital Embora Florianópolis concentre o maior número de startups, investidores e programas de aceleração, Ramos comenta que o avanço catarinense não se resume à capital. Hoje, grandes iniciativas tecnológicas já são operantes em todas as regiões do estado. “Santa Catarina como um todo é um ecossistema consistente. Hoje, cerca de 40% das 1.900 empresas associadas à Acate estão fora de Florianópolis, representadas em sete polos regionais credenciados. Essa descentralização fortalece o estado como um todo: só seremos uma referência global se todas as regiões tiverem condições de inovar”, afirma o presidente da Acate. Ramos também associa o crescimento do setor à capacidade de aplicar tecnologia a problemas concretos de outras cadeias produtivas do estado. Segundo ele, todo o ecossistema tem crescido e impulsionado soluções que movimentam os outros setores. "As agtechs conectam tecnologia com o forte agronegócio catarinense e a manufatura 4.0 está transformando setores industriais tradicionais do estado com digitalização e automação. Já as healthtechs desenvolvem desde softwares de gestão hospitalar até dispositivos médicos conectados. Temos ainda verticais emergentes como construtechs, edtechs, peopletechs, security tech e smart cities”, reforça. Segundo o presidente, o que une todas as iniciativas é a capacidade de aplicar tecnologia a problemas reais da economia. Ele cita como exemplo o LinkLab, laboratório de inovação aberta da Acate, que já conta com 23 corporações ativas para desenvolver 450 desafios concretos, com mais de nove mil soluções catalogadas. Desafio está em atrair e reter talentos Apesar do histórico de avanços, Ramos reconhece que Santa Catarina ainda enfrenta desafios para se consolidar como referência internacional, e o primeiro deles está relacionado à formação de profissionais. Ele comenta que, com o crescimento do ecossistema, a demanda de contratação cresce em ritmo acelerado, o que reflete na necessidade de capacitar mais pessoas. “Precisamos expandir a formação em áreas estratégicas como inteligência artificial, ciência de dados e cibersegurança, e criar condições para que esses profissionais permaneçam no estado", reconhece Ramos. O segundo maior desafio citado pelo presidente da Acate para o desenvolvimento contínuo do setor é o acesso a capital para financiar o crescimento das empresas catarinenses. Ele explica que muitas empresas catarinenses estão prontas para escalar, mas dependem de um capital fora do estado para chegar a novos mercados. “Por isso, estamos abrindo portas no exterior: em junho de 2026 firmamos parceria com a Mana Tech para abrir um escritório de negócios em Miami, facilitando a entrada de empresas catarinenses no mercado norte-americano, movimento que se soma a uma lista com mais de dez acordos com hubs internacionais. Também temos uma sede da Acate no Canadá e parcerias na Europa”, conta Ramos. Para acompanhar todas as matérias da série Riquezas da Inovação, acesse o canal do projeto no g1.
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